
por Crystiani Venuto
O nosso olhar, isso é o que carregamos de mais importante no nosso semblante. Já diziam filósofos da antiguidade que ‘os olhos são portais da alma’. E quando bate o sofrimento este olhar se perde no vazio. Chega a doer em nosso coração quando vemos alguém que hoje sofre, não calado, mas de forma silenciosa através do olhar.
Ao acompanhar meu marido, o fotógrafo deste projeto, fiquei com a incumbência de aproximar–me das pessoas para conversar e coletar várias informações necessárias para o projeto. Foi o que fiz, e assim que comecei pude sentir cada olhar de tristeza, de dor, de perda. Claro que não foi possível sentir a dor de cada um, mas pude captar quão profunda pode ir uma dor de perder alguém que se ama, seja um filho, um irmão, um neto, um amigo...Quantas lágrimas eu vi derramarem ao citarem seus entes queridos, e as falas como foram carregadas de uma emoção única, difícil para eu expressar aqui.Apesar de certa forma eu já trabalhar com o sofrimento e até com perdas,pois sou psicóloga, nunca tinha estado tão perto de uma dor tão profunda, ímpar! Na verdade, é uma dor que chega a nos tocar, porque as perdas que captei através do olhar e da fala daquelas pessoas não foram dores de doenças,ou outras formas que podem ocorrer conosco, mas a dor de terem tirado de forma violenta alguém saudável, que fazia parte do dia-a-dia daquelas pessoas. Percebi que isso doía de uma forma específica. Cada olhar e cada fala calou fundo em meu coração, e muitas vezes, eu uma psicóloga formada e que trabalha com pessoas a tanto tempo, cheguei a ficar sem saber o que dizer para tentar amenizar ou dar um conforto àqueles que estavam ali na minha frente sofrendo, chorando e dizendo “Tiraram meu tesouro, minha vida, minha razão de viver!”, “Até hoje não sei como aconteceu ,mas nada foi feito!”.
‘Quanta dor!’ era o que eu podia dizer ao terminar cada relato escrito no bloco de anotações e era o que eu dizia ao meu marido depois que terminávamos. Espero do fundo do meu coração que cada um que veja estas fotos possa captar um pouco do que eu captei, não porque quero que alguém sinta dor,mas porque sei que através desta constatação da dor do outro cada um de nós pode se conscientizar de como é importante que algo seja feito para que tanta dor, tanto olhar vazio não seja em vão, que algo dentro do coração de cada um queira mudar o que está aí fora, por onde andamos, não esquecendo que estes olhares poderiam ser o nosso.